Minha primeira experiência no "Cinemão"
- O Editor

- há 4 horas
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Bom, para começar, sou de uma cidade do interior, com uma cena sexual mais restrita se comparada à vastidão erótica de uma capital. Aqui em Bauru, temos um espaço marginal, quase um segredo coletivo: o cinemão. Um lugar que todos conhecem de nome, mas poucos assumem frequentar ou mesmo desejar.
Localizado no centro, em um quarteirão de movimento escasso, o lugar não tem apelo visual — nada de luzes de LED, corpos sarados ou encenação de rolês glamourizado. O que predomina é um ar de mistério, tensionado por ansiedade e curiosidade.
Antes de conseguir entrar, tentei várias vezes. Recuava sempre ao avistar a recepcionista fumante, imponente, que parecia vigiar aquele limiar entre o permitido e o proibido. Até que, num domingo quente, eu e meu boy/sub decidimos finalmente adentrar.
A primeira sensação foi o silêncio, quebrado apenas por uma esquisita música de fundo, daquelas que embalavam os pornôs vintage dos anos 90. No telão principal, um filme hétero de baixa produção rodava para um público majoritariamente gay — talvez uma espécie de quebra de gelo para homens ainda navegando entre a repressão e a fantasia.
Depois fomos para uma salinha onde passava um filme gay. O clima era de voyeurismo discreto: olhares analíticos, pouca conversa, eventual beijo ou mão boba nos cantos mais escuros, mas sem exageros. Havia também dark rooms no fundo, glory holes nas paredes laterais — espaços de anonimato e entrega que sugeriram práticas mais ousadas, como fisting ou BDSM casual, ainda que não explícitas naquele momento.
Confesso que saí com certa frustração. Fiquei menos de 40 minutos, quase como um voyeur acadêmico observando rituais sexuais alheios. Na hora, jurei não voltar mais.
Três meses depois, voltamos — dessa vez em grupo, e acabamos encontrando conhecidos da cena BDSM. A experiência foi outra: mais descontraída, com flerte explícito, exibicionismo consentido e até trocas de contatos. Percebi que o espaço, antes só um ponto de celebração do proibido, também funcionava como um espaço para conexões reais.

No fim, entendo que lugares como o cinemão são santuários de dissidência sexual. São dark rooms da história viva, onde o desejo cru se manifesta longe do mainstream LGBTQIA+ higienizado. São espaços de libertação e experimentação, onde fetiches, práticas e orientações coexistem sem cerimônia.
Recomendo a experiência — nem que seja pela antropologia do desejo.

E aí, quem aqui já foi para o cinemão?