Na interseção entre a genealogia do desejo e a política dos corpos, a comunidade LGBTQIAPN+ sempre foi território fértil para a reinvenção das relações. Historicamente empurrados para as margens do afeto normativo, encontramos na negociação explícita do prazer — o que o senso comum chama de BDSM — uma tecnologia de liberdade. Mas é preciso um olhar cirúrgico para separar o que é um rito de passagem consensual ao prazer do que é a reprodução mascarada da violência. E aqui, caro leitor, prepare-se para o desconforto: nem tudo que ocorre dentro de “nossas” comunidades é automaticamente político ou seguro. Às vezes, é apenas a miséria afetiva vestida de fetiche.
O BDSM, em sua definição clássica, é um arcabouço de práticas que envolvem Bondage, Disciplina, Dominação, Submissão, Sadismo e Masoquismo. Contudo, o que o diferencia radicalmente de uma relação abusiva não é a intensidade do tapa, o aperto da corda ou a aspereza da palavra, mas sim um tripé inegociável: Negociação, Consentimento e Pós-cuidado (Aftercare). No BDSM consensual, a cena é um contrato dramatúrgico. As hierarquias são encenadas, mas os poderes são horizontais. A submissão é concedida como um presente, não extraída como uma obrigação. Há palavras de segurança. Há diálogo prévio sobre limites. Há, acima de tudo, a consciência de que se está jogando um jogo onde o objetivo final é o prazer conjunto, e não a aniquilação do outro.
O problema surge quando o verniz do BDSM é usado para encobrir a podridão estrutural do abuso. E é aqui que a perspectiva LGBTQIAPN+ se torna um campo de batalha ideológico crucial.
Muitos de nós crescemos em lares onde o afeto era uma moeda de troca escassa. A carência afetiva não é apenas um trauma individual; é um marcador social geracional para pessoas queer. Quando essa fome ancestral encontra um meio que prega a “libertação sexual”, o solo está fértil para o desastre. É comum, especialmente entre jovens gays, lésbicas e trans em início de descoberta, a romantização da posse como sinônimo de “intensidade”. A frase “ele me bate porque se importa” ou “ela me controla porque sou dela” deixa de ser um sinal de uma dinâmica de poder negociada e vira a justificativa para o isolamento e a erosão da autoestima.
Nesse cenário, o Pink Money (o dinheiro rosa) atua como o grande agente patológico da confusão. O mercado, sempre astuto, aprendeu a embalar o abuso com embalagem de “estilo de vida”. A estética da dominação foi vendida como commodity. Coberturas de couro, grilhões banhados a ouro e discursos de “alpha” e “beta” importados de masculinidades tóxicas heteronormativas são regurgitados dentro de aplicativos de pegação como se fossem vanguarda.
Há uma indústria lucrativa ensinando, especialmente a homens gays e homens trans, que violência sem diálogo é “masculinidade autêntica”. Há uma mercantilização do sofrimento psíquico onde o ciúmes possessivo é vendido como “romance old school”. O Pink Money transforma a ferramenta de empoderamento que poderia ser o BDSM — que exige comunicação e vulnerabilidade — em um roteiro raso de consumo rápido, onde se compra o acessório, mas não se compra a responsabilidade.
Precisamos problematizar a romantização da “entrega total” sem a contrapartida da responsabilidade total. Dizer que “é BDSM” não pode ser o atestado de inquestionabilidade que cala a boca de quem pergunta: “Você está feliz?” ou “Você pode dizer não a isso sem ser punido com silêncio?”.
Na esteira do pensamento queer, precisamos resgatar o BDSM de seu sequestro pelo abuso. Uma prática é abusiva — e aqui está o incômodo — mesmo que ambos se identifiquem como “da comunidade”. O orgulho LGBTQIAPN+ não nos imuniza contra a reprodução de lógicas violentas. O abusador não deixa de ser abusador porque usa uma bandeira de arco-íris no perfil ou porque justifica a violência psicológica como “estilo de dominação”.
A verdadeira transgressão, aquela que assusta o status quo e o mercado, não é a prática do sadomasoquismo em si. É a prática do cuidado. É a exigência de que, antes de amarrar o outro, você seja capaz de ver nele uma humanidade inteira, e não apenas um objeto de projeção dos seus próprios traumas não resolvidos.
A diferença é simples, mas custosa de admitir: no BDSM consensual, se a corda aperta, existe uma tesoura por perto. No abuso, a corda aperta e o agressor some com a tesoura, deixando você sozinho, sangrando e convencido de que aquilo era “parte do acordo”.
Que tenhamos coragem de olhar para nossas camas e nossas relações com a mesma honestidade com que exigimos respeito das ruas. Porque o consenso não se resume a um “sim” dito sob pressão afetiva ou medo da solidão. O consenso é um verbo que se conjuga no diálogo, e não se compra no mercado.
Comentários